Estratégias para Plantio e Revitalização de Igrejas
Nosso principal alvo neste seminário é a exploração da missiologia a partir da teologia bíblica com destaque nas estratégias que conduzem ao plantio de igrejas. Possuimos 3 objetivos:
· Expor os fundamentos bíblicos quanto ao plantio de igrejas
· Expor os elementos estratégicos essenciais no plantio de igrejas
· Levar os participantes a refletirem sua dinâmica pessoal e ministerial no plantio de igrejas
Introdução
Tessalonicenses 1:5 – Os valores de comunicação do
Evangelho
“... o nosso evangelho não chegou até vós tão somente em palavra, mas
sobretudo em poder, no Espírito Santo e em plena convicção...”
- Poder. Deus é a força empoderadora da missão.
- Espírito Santo. Convence o homem que está perdido e precisa de salvação.
- Plena convicção (pleroforia). Paulo estava certo da mensagem, do lugar, do tempo e da sua vocação.
Mateus
24: 14 - A necessidade de uma comunicação keygmática (inteligível e aplicável),
e ao mesmo tempo martírica (autenticada com o testemunho pessoal).
1.
Contextualização
Missiologia e
Teologia não devem ser tratadas como áreas separadas de estudo, mas sim como
disciplinas complementares. A Teologia coopera com a Igreja ao fazê-la entender
o sentido da Missão e a base para a contextualização do Evangelho. A
Missiologia, por outro lado, dirige teólogos para o plano redentivo de Deus e
os ajuda a ler as Escrituras sob o pressuposto de que há um propósito para a
existência da Igreja no mundo.
Soren Kierkegaard,
Willian James e Rudolf Bultmann promoveram o liberalismo teológico associado à
contextualização: o universalismo e contextualização como forma de
relativização de valores.
O contrapeso
teológico e escriturístico veio em Lausanne, 1974. Se cremos que Deus é o autor da Palavra, que
o Evangelho “é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Rm 1:16),
e que “a justiça de Deus se revela no Evangelho” (v.17), entendemos a
necessidade de comunicar esta Verdade, de maneira inteligível ao que ouve e
teologicamente fiel às Escrituras. Entendemos também que o Evangelho promove
mudanças, gera transformações no homem e na sociedade. É a Verdade de Deus que
liberta todo aquele que crê.
O Evangelho: a necessidade de uma compreensão bíblica
Uma das maiores
barreiras na evangelização é a nossa própria compreensão do Evangelho. Por
diferentes motivos humanizamos o Evangelho nas últimas décadas em um processo
reducionista e passamos a igualá-lo a nós mesmos. Quando se diz que o Evangelho
está crescendo, ou está sofrendo oposição, o que de fato desejamos comunicar é
que a “Igreja” está crescendo ou sofrendo oposição. Paulo, escrevendo aos
Romanos no primeiro capítulo, porém, deixa bem claro algo que parece estar
esquecido em nossos dias: nós não somos o Evangelho – o Evangelho é Jesus Cristo.
Portanto, apresentar a Igreja não é evangelizar. Expor a ética cristã para a
família não é evangelizar. Anunciar a própria denominação não é evangelizar.
Evangelizar é apresentar Jesus Cristo, sua vida, morte e ressurreição, para
salvação de todo aquele que crê.
Modelo bíblico de contextualização da mensagem
Observaremos três
passagens bíblicas no livro de Atos (9, 13 e 17) nas quais Paulo proclama o
Evangelho. Primeiramente a um grupo formado puramente por judeus. Em outra
ocasião a judeus, mas com presença gentílica simpatizante ao judaísmo. Por fim
para gentios totalmente dissociados do mundo judaico e de seus valores
vetero-testamentários. Ficará evidente que Paulo jamais compromete a
autenticidade da mensagem bíblica, porém a comunica com aplicabilidade
sociocultural de forma que haja boa comunicação, utilizando os elementos
necessários para tal.
Notem que aos Judeus
Paulo lhes fala sobre o Deus da promessa, Aquele que lhes trouxe do Egito, pois
estes conheciam o Deus da Escritura e se viam como os filhos da promessa. Eles entendiam que Deus se revelou a seus pais,
que interagiu com seu povo ao longo da história, que lhes deixou as Escrituras.
Ao segundo grupo
Paulo lhes fala sobre o Deus das promessas e da história de Israel mas, como
havia entre eles gentios, lhes fala também do Messias que há de vir para a
salvação de todo aquele que crê. Percebemos aqui neste texto que Paulo lhes
apresenta o Evangelho com fortes evidências vetero-testamentárias, para os
Judeus, além de um grave apelo moral e escatológico, para os gentios
judaizantes.
Ao terceiro grupo,
puramente gentílico, o Messias que há de vir não lhes transmitia nenhuma
mensagem aplicável à sua história, pois era visto tão somente como o Messias
Judeu. Eles não tinham as Escrituras que O revelavam nem as promessas e
alianças. Eles não se enxergavam como filhos da promessa e não se identificavam com Abrão e Moisés.
Porém, eles se viam como os filhos da
Criação. Possuíam tremenda atração pelas obras criadas e fascinação pela
figura do Criador. Eram caçadores de respostas e estudiosos da religiosidade,
qualquer religiosidade. Portanto, Paulo lhes pregou sobre o Deus da criação,
aquele que era antes de qualquer outro, que detém o poder de fazer surgir, e
mantém a humanidade e o cosmos. Ele lhes fala demoradamente sobre os atributos
deste Deus que é único, soberano, próximo e perdoador. Finalmente lhes fala de
Jesus como o centro do plano salvífico de Deus, apresentando-O como o Messias
para toda a humanidade.
A abordagem inicial
em cada grupo foi diferente, a partir de seu contexto de compreensão e vida. A
exposição foi sempre bíblica, com elementos da Palavra. A finalização,
invariavelmente, culminou em Jesus Cristo, sua morte e ressurreição.
Critérios
bíblicos para a contextualização
Tippett enfatiza que
quando um povo passa a ver Jesus como Senhor pessoal, e não um Cristo
estrangeiro; quando eles agem de acordo com valores cristãos aplicados à
própria cultura vivendo um Evangelho que faz sentido à sua cosmovisão; quando
eles adoram ao Senhor de acordo com critérios que eles entendem, então teremos
ali uma igreja entre eles.
Na tentativa de
avaliar a compreensão (e transformação) do Evangelho em um contexto transcultural, ou mesmo socialmente distinto, há
três principais questões que deveríamos tentar responder perante um cenário
onde o mesmo já foi pregado:
a) Eles percebem o
Evangelho como sendo uma mensagem relevante em seu próprio universo?
b) Eles entendem os
princípios cristãos em relação à cosmovisão local?
c) Eles aplicam os
valores do Evangelho como respostas para os seus conflitos diários de vida?
Contextualizar o
Evangelho é traduzi-lo de tal forma que o senhorio de Cristo não será apenas um
princípio abstrato ou mera doutrina importada, mas sim um fator determinante de
vida em toda sua dimensão e critério básico em relação aos valores culturais
que formam a substância com a qual experimentamos o existir humano.
2.
Uma
breve retrospectiva histórica e metodológica
Em
meados do século 19 Henry Venn e Rufus Anderson direcionaram a Igreja através
de sua intencionalidade no plantio de igrejas, justificando que as mesmas
deveriam, ao ser plantadas, ter três características básicas: serem auto-propagáveis,
auto-governáveis e auto-sustentáveis. Era o desenvolvimento do conceito de plantio
de igrejas autóctones.
Na
segunda metade do século 19, o esforço missionário denominacional combinou o
plantio de igrejas com o desenvolvimento social quando foi contruído um número
expressivo de hospitais, escolas e orfanatos em todo o mundo.
Hibbert
observa, assim, que no início dos anos 80 havia três principais tendências
quanto à ênfase no plantio de igrejas. McGravan e Winter enfatizavam o evangelismo
e crescimento de igrejas; John Stott e outros enfatizavam uma abordagem
holística conhecida hoje como missão integral; Samuel
Escobar eRené Padilha adotaram um foco mais direcionado na justiça social.
Encontramos
hoje uma vasta proliferação de modelos de plantio e crescimento de igrejas tais
de como de Garrison, Vineyard, Willow Creek, Ralph Neighbor, Charles Brok,
Brian Woodford e muitos outros. Quase todos possuem três ênfases semelhantes:
a) plantio de igrejas de forma
intencional
e planejada; b) a rápida incorporação dos novos convertidos à vida diária da
igreja; c) ênfase no treinamento de liderança local e comunidades auto-governáveis.
Observando
os diversos segmentos de plantação de igrejas no mundo atual (e na força
missionária brasileira), podemos perceber que o enraizamento dos problemas mais
comuns:
a)
A dificuldade de se distinguir igreja
e templo, perdendo assim o valor do
discipulado e gerando mais investimento na estrutura do que em pessoas.
b)
A demora na introdução dos convertidos na vida diária da Igreja, diluindo assim
o valor da comunhão e integração, além de gerar crentes imaturos e
disfuncionais.
c)
A despreocupação com os fundamentos teológicos e atração pelos mecanismos
puramente pragmáticos.
d)
A ausência de sensibilidade social e cultural, pregando um evangelho sem
sentido para o contexto receptor. Uma mensagem alienada da realidade da vida.
e)
A excessiva pressa no plantio de igrejas, gerando comunidades superficiais na
Palavra e abrindo oportunidades reais para o sincretismo ou nominalismo.
f)
O excessivo envolvimento com a estrutura da missão ou da igreja, desgastando
pessoas, recursos e tempo, e minimizando o que deveria ser o maior e mais amplo
investimento: a proclamação do Evangelho.
3.
O
modelo Paulino de plantio de igrejas
Pensemos
na estratégia de Paulo. Em Antioquia da Pisídia ele pregava na Sinagoga, aos judeus.
Eles, impressionados, o convidou a regressar. (At. 13:13-48). Percebe-se que em
Icônio o Evangelho não foi rapidamente aceito, mas Deus o usou manifestando Sua
graça por meio de milagres e maravilhas (At. 14:1-4). Em Listra Paulo foi usado
por Deus para a cura de um homem, e transformou este momento em uma
oportunidade para pregar o Evangelho à uma grande multidão (At. 14: 8-18). Em Tessalônica Paulo
pregava na Sinagoga durante os sábados e na praça durante a semana.
Historicamente ele se postava na “petros”,
um suporte de pedra à saída do mercado, para ali anunciar diariamente a palavra
do Senhor. (At. 17: 1-14).
Portanto
encontramos no ministério de um só homem, em uma mesma geração, diferentes
abordagens e estratégias. Paulo fala a multidões, mas também visita de casa em casa. Ele prega aos
judeus na sinagoga, mas também o faz fora da sinagoga. Utiliza praças e
mercados, jamais deixando de proclamar às multidões. Ele também devota-se a
indivíduos para discípula-los e treiná-los para a liderança local. Devemos,
portanto, compreender que não há estratégias fixas para a proclamação do Evangelho.
Apenas princípios fixos.
No
modelo Paulino de plantio de igrejas podemos observar que as principais
estratégias utilizadas foram:
- Introduzir-se na sociedade local a partir de uma pessoa receptiva ou um grupo aberto a recebê-lo e ouvi-lo.
- Identificar ali o melhor ambiente para a pregação do evangelho, seja público como uma praça ou privado como um lar.
- Evangelizar de forma abundante e intencional, a partir da Criação ou da Promessa, sempre desembocando em Cristo, sua cruz e ressurreição.
- Expor a Palavra, sobretudo a Palavra. Expor de tal forma que seja ela inteligível e aplicável para quem ouve.
- Testemunhar do que Cristo fez em sua vida.
- Incorporar rapidamente os novos convertidos à igreja, à comunhão dos santos, seja em uma casa ou um agrupamento maior.
- Identificar líderes em potencial e investir neles, seja face a face ou por cartas.
- Não se distanciar demais das igrejas plantadas, visitando-as e se comunicando com as mesmas, investindo no ensino da Palavra.
- Orar pelos irmãos, pelas igrejas plantadas e pelos gentios ainda sem Cristo, levando as igrejas também a orar.
- Administrar as críticas e competitividade sem permitir que tais atos lhe retirem do foco evangelístico.
- Utilizar a força leiga e local para o enraizamento e serviço da igreja.
- Investir no ardor missionário e responsabilidade evangelística das igrejas plantadas.
4.
Plantio de Igrejas - Elementos Essenciais
Os valores que devem fundamentar um processo amplo de
plantio de igrejas são diversos, mas mencionaremos os principais:
- Oração. Há clara ligação entre despertamento para oração e plantio de igrejas; entre avivamentos históricos e avanços missionários. Patrick Johnstone: “Quando o homem trabalha, o homem trabalha. Quando o homem ora, Deus trabalha”.
- Abundante evangelização. Nenhuma tecnologia missionária substitui o poder da comunicação pessoal do Evangelho. O Evangelho foi abundantemente comunicado em cada período de expansão e plantio de igrejas de forma pessoal, fiel e constante.
- Intencionalidade e objetidade. A ausência de uma intenção clara e objetiva de plantar igrejas é, em si, talvez a maior barreira para que isto venha a acontecer. Hesselgrave afirma que 75% das igrejas plantadas em lugares onde não há igrejas nasceram a partir de ações intencionais.
- Fidelidade à Palavra. Há muitas estratégias de movimento de massa que são funcionais, entretanto não são bíblicas. David Hesselgrave alerta-nos dizendo que “nem todo novo pensamento é dirigido pelo Espírito. Nem tudo o que é novo é necessariamente bom. A Bíblia é antiga, o Evangelho é antigo e a Grande Comissão é antiga...”.
- Liderança local. Todo amplo movimento de plantio de igrejas que tornou-se regionalmente duradouro contou com um forte envolvimento de pessoas locais desde a primeira fase. O investimento em pessoas locais, passando-lhes a visão, paixão e estratégias garantirá um processo de plantio de igrejas que vá além do missionário ou evangelista.
- DNA multiplicador. A reprodução de igrejas plantadas em uma segunda fase deve ser feita por meio dos frutos e não da raiz do movimento. Nesta etapa o(s) missionário(s) devem estar já assumindo uma posição de supervisão da visão e encorajamento, e não de linha de frente. Igrejas devem plantar igrejas. O modelo missionário que sugiro é: Inicie, pregue, discipule, reproduza, assista, encoraja e parta.
5.
Plantio de igrejas – Principais
Barreiras na dinâmica ministerial
Os
principais inimigos da evangelização e plantio de igreja em contexto
intercultural são:
·
Falta de foco: múltiplas, pequenas e secundárias atividades que consomem todo
o tempo e drenam toda a energia.
·
Falta de disciplina: A necessidade da organização e
disciplina para um bom uso do tempo.
·
Falta de estratégias: a limitação de um trabalho
puramente intuitivo. A abundância e
persistência como elementos centrais na evangelização e plantio de
igrejas.
·
Falta de conciliação com as
coisas da vida:
a necessidade de conciliação das “coisas da vida” com o ministério missionário.
·
Falta de recursos financeiros:
a grande demanda
de recursos ao longo dos anos e a necessidade de planejamento, priorização e
sacrifício.
·
Falta de motivação:
Estar no local
errado; permanecer tempo demais sem se mover para uma nova etapa; problemas
relacionais dentro ou fora da equipe; falta de sincronia motivacional no casal;
Isolamento e saudosismo nos solteiros.
·
Falta de comunhão com Deus: A vida devocional como
fundamento para a vida e o ministério.
·
Falta de encorajamento e
pastoreio: A
ausência de prestação de contas, bem como a ausência de pastoreio resultam em
isolamento, paralização ou distorções.
Algumas
soluções e boas iniciativas:
·
Vida com Deus: fonte geradora de motivação, paz
e direção no ministério.
·
Cuidar do coração, do casamento e/ou família. É necessário estar bem para trabalhar bem.
·
Ser proativo procurando ajudar mais do que
espera ser ajudado.
·
Ser um simplificador dos problemas que lhe chegam.
·
Procurar ajudar sempre que detectar um problema crônico
ou difícil.
·
Ter um foco claro, simples e viável em seu
ministério.
·
Escolher suas lutas. Não são todas.
·
Investir na comunicação com irmãos e igrejas para boa
cobertura de oração e também apoio ministerial.
·
Investir na comunicação na equipe para boa amizade, oração e apoio
ministerial.
·
Corrigir os caminhos errados. É sempre possível recomeçar:
novos alvos, novo relacionamento, nova motivação, nova disciplina, nova
organização, novo coração.
TRABALHOS CITADOS
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